“ Tráfego aéreo no Parapente”
O Voo Livre também tem as suas normas de tráfego. Talvez não sejam tão concretas e especificas como as que nos regem quando viajamos sobre rodas, nem tão importantes ou precisas como as que se aprendem para, por exemplo mergulhar, mas convém conhecê-las e respeitá-las para evitar problemas quando não estamos “sozinhos” numa descolagem, ou a voar ladeira, ou a subir em térmica ou mesmo quando estamos para aterrar.
É mais uma questão de respeito e bom senso do que uma fiscalização ou limitação da nossa actividade. Voos, que por sorte, sempre serão mais livres que em qualquer outra modalidade aeronáutica. Qualquer das formas, o facto de podermos continuar a usufruir dessa liberdade ou tolerância depende do grau de compromisso que todos nós demonstremos. Muitas vezes, os problemas chegam por falta de informação, por uma interpretação equivocada de alguma das normas de tráfego ou pela pressão que exerce sobre alguns, a competição.
Neste artigo não se irão enumerar todas as regras de tráfego aéreo mas sim apresentar algumas situações práticas de problemas e resolução dos mesmos em problemas no ar com tráfego com parapentes, ainda, algumas soluções de segurança para desfrutar sem limitações do voo junto a outras asas.
Por vezes não é possível respeitar à letra as ditas regras de tráfego, porque ao fazê-lo, rigorosamente não poderíamos voar ou perderíamos boas oportunidades que nos oferece a aerologia.
Deste modo, tudo se resume a conhecer os problemas e estar de acordo com os demais, para que se saiba sempre o que fazer relativamente ao outro, quando, eventualmente ocorra o risco de por exemplo, a colisão.
DESCOLAGEM
À frente de qualquer descolagem, podem-nos estorvar outros pilotos que pensam que as melhores térmicas ou a ladeira mais laminar está precisamente ali adiante. As suas manobras junto à zona de saída cortam ou limitam a descolagem dos outros. De modo que, e muito simplesmente o primeiro conselho é afastarem-se para que deixem descolar os outros,... – Quanto o afastamento? Tanto quanto seja necessário, de modo a que, quem descola possa realizar as suas primeiras manobras (girar para apoiar-se na ladeira ou entrar na primeira térmica) com certa liberdade de movimentos.
Os primeiros minutos do voo são os mais perigosos, normalmente o piloto ainda não se ambientou nem se concentrou no meio, por vezes, não está bem sentado, ou não encontra o seu repousa-pés, ou alguns arreios de ajuste do seu arnês, ou lhe falta ligar o vário ou o rádio ou tem uma volta no manobrador. Por isso, necessita de tempo para se sentir dono da situação (que tem tudo sobre controle). Se nada das situações anteriores se passar, já bastará ter que se “bater”, com mais uns quantos companheiros no ar, ás vezes dez outras quarenta e ainda outras até cem?!?!?.
Se falamos de um aluno, a coisa pode ser bem pior, porque essa presença incómoda, a de outros pilotos no ar, pode levá-lo a fazer uma manobra imprevista ou errada e não ser capaz de a controlar. Penso que a ideia dos alunos estarem identificados com fitas de cores bem visíveis, colocadas no arnês ou bordo de fuga da asa, como existem como obrigatoriedade noutros países, simplesmente resolveria, com certeza, alguns destes problemas!
VOLTAS
Todos deveriam saber que quando encontramos alguém pela nossa frente, devemos virar á nossa direita, mas se temos a ladeira á nossa direita e não temos espaço ou grande margem para manobrar, o outro deverá perceber e abrir mais á sua direita para poder dar-nos prioridade. Isto funciona muito bem quando voamos em ladeira ou falésia e quando os cruzamentos (passagens) se sucedem com frequência e normalmente, ou seja, quem vem com a ladeira pela esquerda afasta-se um pouco para a sua direita, deixando passar quem vem com a ladeira pela sua direita, simples!...não?!.
Pois é, mas esta situação idílica muitas vezes não coincide com a realidade. È imaginar por exemplo, na praia da Fonte da Telha com o vento fraco ou no Cerro em Loulé com térmica fraquita, cerca de 10 asas a tentar sobreviver à frente da descolagem!?, quantos crêem vocês que estarão dispostos a afastar-se para vos dar prioridade e sujeitarem-se a “marrecar”? Pois, aqui começam os problemas. Umas vezes uns toques, outras em extremos até colisões, o grande problema é que, por vezes a proximidade do solo agrava a situação, nem sequer nos dá a possibilidade de utilizar o Paraquedas.
Então penso que se poderia fazer assim (técnica usada em outros locais de voo... no Mundo):
Quando descolamos e vamos à direita, com a ladeira á nossa direita, em vez de nos juntarmos logo a ela afastamo-nos para fora para que os pilotos que vêm com a ladeira pela esquerda possam aproximar-se ao máximo de uma forma tangencial ao limitado espaço de descolagem e aterragem (top-landing),...- simples, ... não?!
DOIS JÁ SÃO UMA MULTIDÃO
Mas quando se trata de girar numa térmica, a coisa muda, porque os epicentros dos nossos 360º serão muito próximos (condições fracas), e num dado momento estamos com certeza com trajectórias convergentes, especialmente se não se ganha muita altura e se tem que girar perto do relevo. Alguns destes exemplos aparecem muitas vezes em competições, muitos pilotos e condições fracas.
Existem dois factores para este problema, primeiro as condições do dia, se são fracas e a ladeira não faz subir os pilotos, estes agarram-se a seja o que for para sobreviver, por vezes à custa de não respeitar os outros. O outro factor, é sem dúvida a experiência. Porque aqueles que fazem todo um campeonato nacional e provas internacionais, até estão habituados a voar em grupo e por vezes bem numeroso, mas aqueles que ainda não estão habituados a estas andanças, por vezes os reflexos!?!?... pois, têm de ser mais frios e até nem o são!. O grande problema é novamente a colisão. Temos então que averiguar, não de quem é a culpa neste caso, mas sim, estabelecer algumas conclusões para evitar estas situações de risco.
COMO ACTUAR
Se vemos um piloto a girar uma térmica á nossa altura (dando uma ou mais voltas de 360º), a nossa intenção é a de ir até essa térmica, não devemos de forma alguma apontar ao piloto, entramos por trás do piloto e seguimos por detrás dele, acercando-nos ao núcleo de forma gradual sem estorvar o colega voador (que já lá estava). Em competição é muito frequente ver como um piloto começa a marcar uma térmica sozinho e como daqui a nada cerca de dez ou mais se aproximam e todos a apontar ao núcleo cada um no seu raio de giro (como que atraídos por um íman). Reparem que se todos e cada um fossem entrando tangencialmente, ganhariam sem dúvida eficácia ao evitar-se manobras bruscas para evitar colisões, que só ajudam a perder a concentração e por vezes até a própria térmica.
Isto é algo que parece muito óbvio, mas que na prática por vezes, um ou outro piloto menos “atento” entra a cortar a térmica pelo meio, e atrapalham todo o grupo que já lá estava, ás vezes até nem respeitando o sentido de giro já estabelecido.
Outro problema são os pilotos que não giram quando devem girar, que não centram a térmica com viragens mais ou menos regulares, mas que vão saltando de piloto em piloto como crendo que, se se colocaram á sua altura simplesmente aproximando-se o mais possível destes, sobem também. Quantas vezes estamos a tentar centrar e fechar uma volta, e termos que abrir porque vemos alguém a aproximar-se na nossa direcção em linha recta e passa a voar a direito e nós “lixados” que nos separamos dele e do núcleo e o rapaz nem sequer entra na térmica!?. Ele não entrou e nós acabamos de sair na descendente.
Esta falta de coordenação acontece porque uns pretendem girar e rentabilizar ao máximo o seu voo e conhecimento, e outros não estão para o trabalho, ou melhor,... não sabem e parece que nem querem saber?!. E assim transitam indecisos como que, sem saber que térmica escolher entre o excesso de informação de tanta gente a voar com raios de giro e em núcleos completamente distintos. Á medida que se ganha altura a coisa organiza-se e esses pilotos vão ficando por baixo, enquanto que, os que sabem o que fazem vão subindo sem problemas. De repente parece que tudo é diferente e nada se atreve a romper a harmonia do grupo, inclusivamente seguimos muitas vezes a girar mais tempo que o necessário, empurrados pela inércia e comodidade de se saber que se está na mesma massa de ar com os outros. Que é a antítese do problema inicial que relatava.
Também se deve saber quando abandonar a tempo as térmicas e de como transitar, é importante não seguir atrás uns dos outros, mas sim abrir a área de abrangência e busca de novas térmicas no terreno, para logo que possível nos deslocar-mos para aquela que pareça a que está a funcionar melhor. O voo em grupo é muito agradável, no entanto, pode resultar um grande pesadelo perto do relevo e em ascendências fracas e em espaços muito limitados.
10 NORMAS DE BOM SENSO
Descolagens:
- Depois de descolar, deixar livre a zona.
Sempre:
- Os alunos ou iniciados têm sempre prioridade.
- Olhar antes de virar.
- Virar sempre á direita em rota de colisão.
- Cuidado com as turbulências.
Em térmica:
- Entrar tangencialmente por trás.
- Quem está por baixo não nos vê, vigia-o.
- Respeita o mesmo sentido de giro.
Aterrar:
- Se estás mais alto, abre mais a manobra.
- Se estás mais baixo, encurta a chegada.
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