Voo Aventura
Este voo, foi o primeiro a ser efectuado desde o local do Pico do Areeiro – Ilha da Madeira. Sem dúvida, a realização de algo que um dia sempre sonhamos em realizar (até ao próximo!), em que o espírito de Aventura e a paixão pelo voo se unem em harmonia, transformando a união das duas e a sua sintonia no VOO MÀGICO.
Voo para a Penha d'Àguia
No dia 27 de Abril realizei um sonho que há muito me perseguia: voar no Pico
do Areeiro. Tinha analisado as condições atmosféricas pela manhã, eram
perfeitas para este voo. Mas como era uma quarta-feira não previa
ir voar. Como quem não quer a coisa resolvi ir espreitar o local. Não
resisti e descolei. Aterrei na Praia da Maiata, no Porto da Cruz, pouco
passava da 20:30, depois de um voo solitário à conquista da Penha d'Águia.
Depois de o ter efectuado, posso dizer-vos que é um voo acessível a qualquer
piloto. Uma marreca! Mas é uma marreca muito especial. São quase 11 Km de
voo planado com um desnível de 1800m, num cenário de cortar a respiração.
Brutal!
 |
|
 |
O vento soprava muito fraquinho, por isso tive de descolar num venturi
situado entre a estalagem do Areeiro e o caminho que vai ter ao Miradouro do
Juncal. Descolei à primeira. As mãos tremiam e o coração estalava no peito.
Contornei o pequeno morro que me separava da visão mais impressionante que
tenho memória desde que comecei a voar: Um mar de nuvens, 400m por baixo dos
meus pés, ladeado à minha esquerda por escarpas aguçadas enfeitadas por uma
cascata de neblina aquecida no caldeirão do Curral das Freiras.
À minha frente o branco almofadado estendia-se até ao infinito. Reparo então
numa pequena sombra a mover-se lentamente de onda em onda naquele mar de
bruma. Tinha uma forma familiar. Era a minha asa. Era eu que estava ali. À
volta da minha sombra estava pintado um arco-íris em forma de halo que
serpenteava à medida que navegava rumo ao desconhecido.
A emoção era tanta que ainda não tinha verificado os dados do meu GPS. Mirei
o ecrã de soslaio. Não queria perder nada. Estava tudo bem, o planeio era
bom. Tirei então algumas fotografias para partilhar convosco, senão não
acreditavam!
Chegara a hora de mergulhar naquele oceano de espuma. A Nuvem era rarefeita,
mais parecia uma névoa, o que me deixou mais tranquilo. Fixei os olhos no
mostrador do GPS e aguardei pacientemente a descida à base da nuvem. Próximo
dos 1200m começaram a desenhar-se à minha volta, como por magia, os
primeiros contornos dos caminhos, das casas e dos palheiros muito
característicos daquela zona. Reconheci logo as Cruzinhas do Faial e o
Ribeiro Frio. Voltei a confirmar a finesse. Tudo perfeito.
Já fora da nuvem o cenário era soberbo! Por todo o lado pequenas casinhas,
que mais pareciam aquelas que os madeirenses colocam no presépio,
salpicavam de vermelho o verde intenso da paisagem. Em baixo as estradas
serpenteavam lado a lado com as ribeiras em direcção ao mar. Olho em frente
e lá estava ela: A Penha d'Águia. O Rochedo Majestoso. Por várias vezes -
quando descolei dos Lamaceiros - tentei alcança-la e não havia conseguido.
Hoje serás minha!
Rumei em frente em direcção a ela enquanto os meus olhos saltitavam de um
lado para o outro. Queria ver tudo e tudo era bonito. Vi o Santo da Serra, a
Ponta de S. Lourenço e o Caniçal e lá em baixo o Porto da Cruz como nunca o
tinha visto antes, mas era aquele Penedo Imponente que mais me prendia a
atenção.
À medida que me aproximava do Penhasco das Rapinas, ia crescendo a pressa de
querer chegar. Já próximo da parede de 400m fui brindado com os últimos
bafos de calor guardados para mim, como se fossem um presente de boas-vindas
e um convite a sobrevoar o Promontório Solitário. Aceitei o convite e fui
espreitar o outro lado até avistar as piscinas do Faial.
Já chega de tanta emoção, pensei. Despedi-me do Calhau das Mantas com uma
descida em espiral sobre o Porto da Cruz. Aterrei na Praia da Maiata e
voltei a olhar para ela. Sorri.
Virgílio Bento
30 de Abril de 2005
|