Newsletter Nº8 (12/06/2005)

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BOM SENSO

 

Voo de Montanha   Voo de Montanha

 

O sentido comum ou bom senso é o mais comum dos sentidos?

Pela lógica assim deveria ser, no entanto, não o é!? E isto é detectado naquelas actividades em que a ausência de bom senso joga um papel de efeitos imediatos determinantes.

Voar, visto que não é um dos elementos naturais do homem, conserva um risco, indubitavelmente acrescido.

No entanto, pode e deve ser um risco calculado. È um risco minimizado pela segurança. Por exemplo, as nossas asas com as homologações actuais, o melhor conhecimento técnico e teórico das várias matérias, a experiência dos pilotos mais “veteranos”, etc.

Mas este, infelizmente não é bem o caso. O problema é uma questão do bom senso. Senão vejamos: na escola de voo, ensinamos a voar (técnicas práticas, conhecimentos teóricos, regras e segurança), mas não faz parte do curso nenhuma matéria teórica sobre o bom senso, embora, também seja um assunto que normalmente discutimos com os alunos. Quando compramos uma asa, comprovamos que trás tudo, menos uma bolsinha de plástico com uma dose de bom senso. A DHV ou AFNOR nos seus testes, homologam e relatam as virtudes e manhas de uma asa, chamam-nos à atenção para alguns pormenores, mas não certificam o nosso bom senso.

Ou seja, em poucas palavras, a questão do bom senso sem dúvida, está por nossa conta, nem pode ser “ensinado” na escola (subjectivamente), também não vem com a nossa asa, e nem sequer o vendem na farmácia (nas farmácias o que podemos encontrar são uns gel-creme para as contusões e uns calmantes para os “sustos”).

O bom senso vai em paralelo, em muitos casos, com os vários conceitos de cada um. Os que tomam o voo como mais uma experiência excitante e mais uma novidade desportiva “radical”. Os que pensam que para voar é só fazer um cursito tipo ligeirinho para aprender a manejar o “trapo” de cores “fashion”, tirar umas fotos e já está. Outros, porque são muito machos ou muito audazes, que pensam, que já nasceram ensinados... e aquilo é chegar e andar, e que tudo é uma questão de adrenalina, ou ainda outros que ainda mal têm 20 ou 30 horas de voo com determinada asa, dizem que não têm mais rendimento ou não conseguem voar melhor, e que a razão e culpa é desta, correm então a comprar “máquinas” mais potentes para colmatar a lacuna da sua “falta de rendimento”...!?.

Pois é, estão muito enganados!

Voar, mais que tudo, é uma vocação profunda, quase uma religião, que merece todo o nosso respeito. Voar é um desporto puro, muito pessoal, quase místico, diria solitário, por mais que voemos em grupo ou em bilugar, com amigos ou em competição. Lá em cima estamos sós e isso exige uma certa presença de espírito, preparação, lucidez, disciplina, e o poder de concentração de todos os nossos sentidos... os cinco e mais um... o BOM SENSO.

Todos os que não o julguem assim, que o tomem só como uma “brincadeira”um simples “divertimento”, os que lhe faltem ao respeito, são candidatos, mais cedo ou mais tarde, a arriscar com a sua integridade física, e por consequência, a deturpar a imagem que se tem do voo, transmitindo-a aos demais de uma forma menos digna e correcta. Já que o assunto só por si pode causar muitas outras controvérsias, as quais, por exemplo, as inoportunas comparações em que se destacam as virtudes de uns e os defeitos dos outros!?

Somos tremendamente eloquentes na defesa das nossas posições e frouxos na maioria das vezes nas realizações práticas que essas nossas ideias transmitem. Alarmamo-nos com os acidentes, tomamos posições “teóricas”, damos opiniões, e no entanto na maioria das vezes somos incapazes de tomar medidas práticas. Resignamo-nos com as expressões tipo “foi má sorte” ou então “que azar”. Penso que isto nem sequer é muito certo, o factor sorte ou azar incide numa proporção mínima, mesmo que seja quase sempre a justificação da qual nos socorremos para cada ocorrência, mesmo que, seja só por um momento ou circunstância.

Todos somos diferentes, cada qual, á sua maneira. Mas, desde que apertamos o capacete respiramos fundo e descolamos para mais um voo, deveremos sempre pensar que a nossa regra numero um se chama BOM SENSO.

Para o nosso próprio bem e o bem-estar comum.

Piloto sem protecção adequada   Sem Comentários!!

 

Ninguém escapa à importância que têm os factores anímicos na prática do Parapente.

Desde o principiante mais novato ao competidor mais experiente, todos estamos expostos à acção "maléfica" ou "protectora", segundo cada caso da nossa própria parte

Psicológica. Os sentimentos de euforia ou tristeza, o medo irracional ou a temeridade inconsciente, as preocupações ou desgostos, são todos exemplos válidos de influência que os agentes externos têm sobre a nossa atitude e aptidão para voar em condições especiais. A optimização do voo e a redução ao mínimo do seu perigo potencial exigem um controlo de todos os factores de risco. De entre eles, se destacam alguns elementos psicológicos, os quais, este artigo pretende abordar

Alguns Factores Psicológicos que aumentam o risco no Parapente

  • Fascínio pelo objectivo
  • Sentimento de invulnerabilidade
  • Atitude de grupo temerária
  • Muito tempo sem voar
  • Muito tempo sobre o último incidente
  • Regressar (descer) sem voar
  • Pressa para descolar

 

Fascínio pelo objectivo

Este factor é o responsável por um sem número de acidentes "estúpidos".

Quantas vezes nos encontramos a voar no limite para chegar mais uns metritos à frente, subir um pouco mais alto ou aterrar mesmo "naquele sitiozinho"!? È absurdo, mas sucede. Mesmo que esteja a ocorrer somos incapazes de visualizar a situação (desde o lado de fora). Não podemos relativizar a importância do objectivo que nos atrai como que se tratasse de uma nossa simples prepotência ou leviandade. Uma vez que passou, parece-nos impossível como arriscamos tanto para conseguir tão pouco.

Assim para a próxima vez que te encontres a ponto de te deixar arrastar pelo fascínio do objectivo pensa um pouco antes de te deixares levar pelo entusiasmo. Quem sabe se hoje só fazes 25 Km , mas sempre é melhor que te “estatelares” no chão mais á frente ao passar um obstáculo no qual até terias que encolher as pernas pare não tocar. Ao fim ao cabo, o melhor voo é aquele que ainda está para vir. Pensa sempre na prevenção e não arrisques mais que a conta.

 

Sentimento de Invulnerabilidade

Acontece quando pensamos que estão controlados todos os factores e/ou elementos. Instintivamente relaxamos e deixamo-nos invadir por uma sensação embriagadora de poder e domínio. Um sentimento de invulnerabilidade apodera-se de nós levando-nos a estender a margem de segurança mais para lá do desejável. È o momento das nossas apostas, dos desafios, e das proezas. Portanto, antes que se comecem a fazer disparates com o parapente, devemos tentar perceber se notamos esta sensação, de domínio (superior ao a normal), neste caso, é melhor ficar quieto e não fazer muitos disparates. Se por contrário, estas sensações são normais, então, também não inventes " não vá o diabo tecê-las".

 

Atitude de grupo temerária (dinâmica de grupo)

Este tipo de dinâmica (num âmbito geral e agora especialmente no parapente) refere as mudanças de conduta pessoal pelo efeito de fazer parte de um grupo. Podemos aqui referir algumas situações típicas desta "dinâmica de grupo".

Mais importante que tudo, será termos em conta de que quando voamos com mais gente percebermos quais as nossas limitações. Não somos melhores pilotos pelo simples facto de voarmos com pilotos que voam mais que nós. A voar aprende-mos voando, não pela amizade, nem por contágio venéreo. Se nos rodeamos de um grupo de pessoas sensato, devemos escutar as suas opiniões antes de tomarmos decisões precipitadas. Quando a nossa opinião é radicalmente diferente da do grupo, deveremos adoptar uma decisão prudente: (1) se os outros acham que é melhor não descolar, analisa este facto tentando perceber o motivo da tua euforia (vigiar o sentimento de invulnerabilidade); (2) se, por contrário, és tu que vês um mau cenário, espera pacientemente e observa o desenrolar das coisas, provavelmente acabarás por te convencer que a situação não era assim tão má.

Por último, se não tivemos sorte com os nossos companheiros de grupo e estamos rodeados de um grupo de "malucos", então é de aplicar o teorema do adolescente:

Fazer sempre o contrário do que nos digam. E mudar de grupo enquanto podemos.

Com certeza viveremos melhor e mais tranquilos.

 

Muito tempo sem voar

Este é outro factor de risco que se nos apresenta com relativa frequência (- a alguns...eh...eh!!), com maior ou menor importância, mas, acontece mais cedo ou mais tarde.

È fundamental recordar que as condições de segurança no voo livre são um factor objectivo e imutável, próprio de cada piloto e que evolui à medida que aumenta a sua experiência. Isto quer dizer que o único factor que compreende as nossas próprias limitações é a experiência adquirida com as horas de voo. Portanto as horas que passamos em voo mental em frente ás páginas de uma revista ou virtualmente no computador, por si só, não nos facultam assumir riscos maiores.

Pelo contrário, quanto mais tempo estivermos sem voar mais cautelosos devemos ser na hora de descolar. Se não se aplicar este princípio, as possibilidades da "coisa" acabar mal aumentam de forma desproporcionada.

 

Muito tempo sobre o último incidente

Efectivamente, quanto mais tempo levamos sem ter um susto ou percalço, mais possibilidades temos de o vir a ter. Esta situação obedece a duas razões. A primeira é uma simples razão estatística sobre a qual não podemos actuar; e a segunda é uma questão psicológica e esta sim podemos controlar. À medida que se apaga na nossa memória a recordação do último incidente de voo, mais recuperamos a confiança que esse mesmo percalço nos fez perder, e voltamos a assumir riscos. Isto não quer dizer que se deva voar toda a vida "acagaçado", como por exemplo com o fechamento que tivemos à 1 ou dois anos, quando estávamos a aprender a voar em térmica. Pelo contrário devemos superar este medo que fica associado a todo o incidente em voo, no entanto, é importante salientar que não podemos é esquecer os ensinamentos positivos que derivam destes incidentes.

Numca devemos esquecer que um dos grandes problemas do voo livre é o seu carácter parcialmente aleatório:

“ Nem sempre que acontece algo mal, se passa algo grave; mas para que se passe algo grave, geralmente é porque fizemos algo mal.”

Por este motivo, temos a tendência a fazer mais maluqueiras quanto mais tempo se passa sem que nos aconteça nada ao fazê-las. Desta forma aumentamos as possibilidades de levarmos susto. Ou algo pior.

 

Regressar (descer) sem voar

Quantos de nós por vezes depois de subirmos com a asas ás costas até uma descolagem e depois de ver ainda o último a sair, chegamos e já “não dá”!?... ficamos pior que “baratas”, e então, por vezes lá forçamos e a coisa nem sempre corre bem, ou porque, rasgamos a asa, ou mandamos um trambolhão ou por aí fora!?...

Este factor, consiste no assumir riscos superiores aos habituais só pelo facto de não querermos descer desde a descolagem “à pata” sem ter podido voar.

Devemos ter consciente que não depende do que custou subir ou ter que voltar a descer com tudo ás costas nem o que os outros poderão pensar. O limite é o limite. É o que é por mais que tenha custado subir á descolagem. Assim devemos saber que, quando vamos voar a um qualquer local que exija subir até á descolagem com a asa ás costas, será importante recordar a regra do jogo:

- se te vais “amandar” para não descer andando, é melhor que não subas.

Há montes de sítios, aos quais, se chega de carro!



Pressa para descolar

Normalmente para que este factor aconteça, tem a ver especialmente com um facto, o de chegarmos tarde á descolagem..., e deparamos com várias situações, como por exemplo; está quase a ficar catabático; está a começar a rodar para outra direcção; ou ainda, porque as condições estão a ficar mais fortes, e então ... à que despachar!.

A pressa nunca é boa companheira. Mas no Voo Livre, a pressa é ainda um terrível inimigo que nos fórça a sair da rotina e nos obriga a cometer erros de principiante. As bandas torcidas, o acelerador preso ou solto, um fecho desapertado, são o exemplo disso.

Descolar no último instante e com pressa por vezes até nos permite fazer um voo, algumas das vezes com grande vontade de rapidamente chegar ao solo e aterrar e que a “sorte” nos acompanhe (grande susto...!).

Perante uma situação destas será preferível ficar na descolagem, e que, uma ocasião melhor nos assegure o próximo voo.

 

EPILOGO

Existem outros factores psicológicos que influenciam a nossa capacidade de voo. Afortunadamente, o parapente perdoa mais erros do que se pensa, no entanto, nunca devemos baixar o nosso índice de atenção. È importante recordar que o parapente não é perigoso, perigoso é o piloto. De entre outras coisas, porque é ele(a) que pensa, está alegre, distrai-se, relaxa ou bloqueia, deprime-se ou excita-se. E sabemos que o melhor piloto é aquele que chega a velho com todos os seus ossos intactos, e que para envelhecer a voar com um pano ou uns tubos por cima, não temos outro remédio senão voar usando a cabeça.

E já agora, já que todos têm capacete (integral), não se esqueçam deste detalhe: levem-no na cabeça.

Pilotos analisando condições   Pilotos após um bom voo(segurança máxima)

 

WindTeam